sábado, 31 de dezembro de 2011

A ESSÊNCIA DO NATAL

Em meio às festividades natalinas, uma pequena afirmação de minha menina de apenas três anos e meio, revelou-me, quase que instantaneamente a necessidade de refletir sobre a essência do natal. A afirmação da mesma foi, de maneira bem enérgica, que papai Noel era um grande mentiroso!
De início, um levante coletivo surgiu para desfazer tal pensamento, conduzindo a menina ao abismo do irreal, devolvendo a ela a crença num ser mitológico, ou melhor, folclórico. Porém, depois de alguns minutos de ruminação para desenvolver uma resposta condizente á tenacidade da pergunta, percebi que o assunto é bem mais complexo do que imaginamos. Isso me fez remontar uma conversa que tive com certo amigo acerca da falta de transparência e de verdade nas ações das pessoas. O mesmo disse o seguinte “se somos transparentes assustamos, se verdadeiros, magoamos. As pessoas não estão preparadas para ouvirem a verdade e sim aquilo que querem ouvir! Ser amigo não é agradar sempre, é também ser contundente quando necessário, pois o carinho nem sempre é pedagógico.
Porque de tanto esforço para não esclarecer o que uma menina de apenas três anos conseguiu enxergar, fugindo das armadilhas (mídia), condicionadoras de pensamentos? Porque não dizer que papai Noel não é mentiroso, e sim a própria mentira, forjada pela égide do capitalismo cruel e consumista? Então logo tentei respondê-la.
Filha, papai Noel não existe! Deus é que verdadeiramente existe. O velhinho gordo, com renas e trenós, mão passa de uma armação! Se você quiser, papai te leva aos correios para lhe mostrar a quantidade de cartas que há para papai Noel pedindo sua visita. Cartas essas, feita por crianças órfãs, ou que possuem pais se condições de presenteá-las, logo o papai Noel não irá visitá-las. Minha filha, Deus (papai do céu), que ordena tudo o que há nesse mundo, é quem supre todas as nossas necessidades, porque ele é amor e amar não é uma coisa fácil!
Filha, você sabia que deus enviou para a terra um filho para redimir e ensinar, com extrema autoridade e humildade, um povo hipócrita, mentiroso, pecador e autodestrutivo a amar? Você sabia filha que esse homem filho de Deus morreu por nós? Eu pergunto querida filha, quem de nós possui um amor tão grande, capaz de entregar um filho à morte por pessoas não merecedoras. Filha, o natal é a celebração do nascimento desse filho de Deus. O natal é Jesus!
Filha, todos nós temos, nem que seja lá no fundo, um cristo, pois o nosso corpo é a morada do seu espírito. Ele é um sol que brilha para todos, pois o mesmo é parte de todos nós. Então filhinha, o papai Noel não veio e nem virá, mas o teu presente eu tenho e é um abraço e um beijo meu, pois o abraço é remédio para o corpo, e o beijo é cura para a alma. (Reginaldo Cabral)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO É PALCO PARA A INVERSÃO DE VALORES.



A carência de ídolos ou heróis pode ser tão nociva a uma sociedade como uma sucessão de desmandos políticos públicos. Isso pode ser verificado no nosso cotidiano, ou ao menos por aqueles que possuem uma visão além daquilo que é possível fisicamente enxergar. Assim como afirmou Mahatma Gandhi que o futuro não é o que tem de ser, e sim aquilo que você faz com o seu presente, nossa vida não é um acaso, e sim um conjunto trilhado, mais ou menos em sincronia com o outro. Sendo assim, se analisarmos o que estamos construindo para um futuro a médio e curto prazo, vamos nos deparar com um nada disfarçado de mudança, ou uma mudança disfarçada de nada.
Estamos vivenciando uma geração sem ídolos, isso indica que quase não possui referência! Estamos presenciando um nada! O que dizer do movimento estudantil, que não possui mais essência política, possuindo, sim, uma essência eleitoreira. O que dizer de uma sociedade que pede paz e consome violência, quando dá audiência a programas policiais sensacionalistas, e também exaltam lutas de MMA – uma volta ao barbarismo humano – onde aniquilar o próximo é a meta? O que dizer de uma sociedade onde Bruna Surfistinha é Best Sellers, digna de ter uma autobiografia cinematográfica? Uma sociedade onde a cultura é paliativa, ou seja, as músicas, as artes, os livros, são como comprimidos, tem um prazo de validade estabelecido, quando deveriam ser eternos, nossos ídolos são meros indigentes (Mc Sheldon, Ivete Sangalo, Bruna surfistinha e Minotauro).
Só para relembrar, o futuro não é o que tem de ser, e sim aquilo que você faz com o seu presente. Os anos 90 acabaram com o nosso futuro.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

MANIFESTO AO PODER

AOS PODEROSOS, TUDO?
SIM, AOS PODEROSOS TUDO!
TODA A GLÓRIA,
TODA A POMPA,
TODOS OS MÉRITOS,
TODAS AS ATENÇÕES,

AOS PODEROSOS, TUDO!

OS PODEROSOS NÃO SOFREM.
SÃO ESTÁTICOS, FANÁTICOS, LUNÁTICOS!
ACREDITO ATÉ QUE SÃO INATINGÍVEIS.

AH! QUE BELA A SENSAÇÃO A DE SER PODEROSO!
TUDO É MEU, TUDO SOU EU.
BASTA UM PISCAR DE OLHOS E TUDO ESTÁ DO MEU JEITO.

MAS, CUIDADO PODEROSOS!
ESSES PODERES PODEM SER LEGÍTIMOS, MAS NÃO SÃO ETERNOS.

E AS INSTITUICÕES? PODEROSÍSSIMAS!

SUAS DECISÕES? FRÁGEIS, MUITO FRÁGEIS!

PODEROSOS, APRENDAM COM A PRIMAVERA:
TRANSFORMAR, MUDAR, NASCER, CRIAR, PENSAR.
A PRIMAVERA É ISSO TUDO. E VOCÊS?
HUMANOS, MÍSEROS HUMANOS!
TODOS NÓS, PODEROSOS OU NÃO, SOMOS REPRESENTANTES E HERDEIROS DA MEDIOCRIDADE HUMANA.
ENTÃO, POR QUE NÃO APRENDER COM A PRIMAVERA?
POR QUE NÃO ADMITIR QUE É CHEGADA A HORA DE RENASCER?

ENTENDO!

RECONHECER QUE NÃO SOMOS TÃO IMPORTANTES ASSIM, DIMINUI NOSSA CONFORTÁVEL SENSAÇÃO DE PODER.
MAS, INSISTO, APRENDAM COM A PRIMAVERA!

DEIXEM AS BATINAS!
GUARDEM OS CRUCIFIXOS!
ESQUEÇAM O PODER INSTITUCIONAL POR ALGUNS INSTANTES E TENTEM RENASCER.

PODEROSOS, APRENDAM COM A PRIMAVERA, POIS O PASSADO NÃO VOLTARÁ E O FUTURO...

VIVA GANDHI!
E O QUE DIZER DE MANDELA?
FANTÁSTICOS!
PODEROSOS, SIM, MAS PODEROSOS DE ESSÊNCIA!
SÓ ISSO BASTA!

PODEROSOS,
NÃO PREGUEM O PODER,
PREGUEM O AMOR!
NÃO PREGUEM O AMOR,
PRATIQUEM O AMOR!

PODEROSOS, ULTIMA CHAMADA!

APRENDAM COM A PRIMAVERA!
POIS O PASSADO NÃO VOLTARÁ, E O FUTURO TALVEZ NÃO CHEGUE.

(Reginaldo Cabral)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Pós-modernidade e individualismo: A necessidade de reencontrar o eu.

Ao mergulharmos no tempo e analisarmos o início das relações humanas, enxergamos nessa sociabilidade característica nossa, certo romantismo, ou melhor, um sentido realmente de humanismo entre os seres. A noção altruísta do homem era superior à egoísta, não pela questão racional, mas pela própria necessidade, já que a vida em grupo significava maior possibilidade de ultrapassagem dos vários obstáculos e barreiras que nossa espécie se defrontou. A felicidade era considerada uma ação grupal. O homem, mesmo ainda limitado em relação ao conhecimento do mundo físico-natural, sentia-se pertencente à totalidade, enfim, sentia-se homem.
Após a diferenciação de classes, típico do ato civilizatório, o cenário da vida e seus respectivos personagens assumem posturas, que, ao passar dos anos, se solidificaram como essência da existência humana, o individualismo. A noção de propriedade privada, assim como afirmou Frederich Engels, “foi o início da destruição do homem pelo próprio homem”. Escravidões, servidões, guerras e prisões, são as conseqüências do ato de dominar, possuir, manipular. A vida material, aos poucos, veio preencher as lacunas deixadas pelas ações inocentes e românticas do homem primitivo. As relações sociais tornam-se, cada vez mais, relações de poder e força. A necessidade constante de está no controle das inúmeras situações é alimentada pela sociedade do espetáculo, onde possuir é sinônimo de “ser mais”. O advento da revolução cibernética nos conduziu ao fundo de um complexo turbilhão de valores invertidos. Amamos o poder e não a nós ou ao outro. Estamos impregnados de um egocentrismo sem fim. A incessante busca de “ser mais”, nossa existência limita-se ao materialismo utilitário. Os homens não são mais seres corpóreos, compostos de sentimentos e emoções, são máquinas programadas onde a vida útil e as sensações são estipuladas pela sociedade. O mecanicismo de nossas ações e decisões demonstra puramente que precisamos, urgentemente, nos reencontrar, pois nos perdemos dentro de nós mesmos, tornando-se reféns de nosso próprio labirinto. O poeta Mário de Sá Carneiro, em poema de grande beleza já afirmava:
Perdi-me dentro de mim,
Porque era um labirinto.
E hoje quando me sinto,
É com saudade de mim.
A cristalização do útil, pelas atitudes individualistas, competitivas e conflituosas do capitalismo pós-moderno, nos convida a realizar com mais humanismo um mergulho na fonte de nossa existência, e, assim, reencontramos, e quem sabe, voltarmos a nos reconhecer. Perdemos nossa identidade essencial, nos transformamos em seres em potencial, porém, frágeis no campo sentimental. Onde está nossa utilidade? No outro? Certamente não. A resposta, assim como a vida cotidiana atual, é individual. Afinal, seguindo essa trilha vamos sempre está em busca do nada para conseguir o útil: o poder individual.
Algumas pessoas poderão e deverão compreender-me, outras, terão certeza de que essas palavras são frutos de um ser frustrado do mundo materialista. O oceano das minhas emoções é tão complexo e gigantesco, que seria impossível retratá-los ou descrevê-los em um mísero e efêmero texto. Reencontrar-me é a melhor forma de não tornar minha existência condicionada, nem tampouco promíscua. Precisamos urgentemente ser mais humanos e menos robóticos, mais dionisíaco e menos apolíneo. Precisamos urgentemente nos tornar menos civilizados!

Reginaldo Cabral.

Os Alquimistas estão chegando, os Mecenas controlaram a educação. O admirável mundo novo tornou-se a constatação de uma mediocridade pedagógica.

Por volta dos fins dos anos 80, embalados pelo pop rock nacional de forte cunho político-social, ideologia significava uma identidade, uma busca por objetivos, enfim, uma referência a ser seguida. Aliás, ideologia, eu quero uma pra viver, já bem dizia Cazuza, era o conditio sine qua non da vida, era uma condição necessária à existência. Belos tempos de rebeldia intelectual ativa. Belas músicas que guiavam uma juventude ávida por conhecimento e pela autonomia de construção de seus próprios caminhos, largando às armaduras do sistema que nos conduziam para um calabouço mental. Realmente grandes tempos. Mas o tempo não para! Às vezes o tempo assume o papel de um algoz impiedoso dos homens, das mentes, das juventudes ávidas.
Eu era um deles! Era um jovem promissor! Era um possível lutador e reconstrutor da minha história, e para isso debrucei-me com todas as minhas potencialidades sobre mim mesmo, acreditando, assim, que tudo começaria ali. Acreditava que toda a estrutura seria capaz de ser transformada por simples gestos e ações, e que as ações deveriam sair de mim primeiro. Concordo! Todas e quaisquer mudanças sociais têm um epicentro que geralmente é o nosso interior, e depois é impulsionado para o externo como forma de explosão, contaminando o que está ao redor. Mas, por que não houve a mudança? Por que a implosão ao invés da explosão? Talvez Shakespeare tenha a resposta, pois no ato I de Hamlet, obra de grande fôlego literário, ele afirma, “há mais coisas entre o céu e a terra do que pode sonhar tua filosofia”. Eis aí uma possível saída para a explicação do entrave de uma caminhada política iniciada nos anos 60/70 e solidificada nos anos 80 não ter mais sua essência visível. Na verdade, nossos heróis devem ter morrido de overdose.
Na minha trajetória de jovem promissor, a responsabilidade de constituir o corpo educacional de um país esfacelado. Poderia aí ser o início da revolução programada por mim? A revolução interna causadora do big bang social e político? A resposta, o algoz do tempo mostrou. De início, formidáveis esperanças, projetos, ações, eram norteados por preciosos, e porque não, graciosos teóricos de plantão. No rosto, estampava-se a alegria do início de uma vida profissional, os primeiros passos à caminho da educação institucional igualava-se a uma criança que encanta-se com a arte de descobrir um mundo novo ao seu redor. O admirável mundo novo que agora estava diante de mim forneceu-me forças, idéias, imaginações, quase todas inocentes e embrionárias, mas, como afirmou um dos grandes categóricos humanistas desse país, Paulo Freire, “nós, progressistas, possuímos um inalienável direito de nos emocionar com os possíveis sonhos de mudança”.
Mesmo assim, caminhei em busca da solidificação de um sonho, inicialmente pessoal, mas de origem coletiva, fruto de uma época de contestações. Um sonho de mudar o país. Estava claro pra mim, que a educação era o único meio para a concretização desses sonhos, e eu, o jovem promissor, comprometido com as pseudo-propostas de revolução educacional, seria o instrumento divulgador da mesma.
Ao longo da formação acadêmica, a nitidez dos acontecimentos saltaram aos olhos como uma verdade bruta, cruel e espantosa. As teorias de revolução educacional não são tão revolucionárias assim, a preocupação na formação dos homens-bombas da educação, aqueles responsáveis pela explosão e contaminação da sociedade, não é de todo satisfatória. As instituições responsáveis pela condução dessa revolução ideológica, não passam de cavernas platônicas, onde o que se enxerga nada mais é que às sombras da pálida e propagada condução para a emancipação revolucionária pedagógico-social. A pegadogia renovadora e transformadora, sede lugar à reprodução de conhecimentos verticalizados condutores de um adestramento social coletivo. “Segundo Nietzsche, a verdadeira educação dá-se quando proporcionamos que alguém desenvolva sua real potencialidade, e não canalizamos o outro para a nossa vontade”. Na verdade, a prática da educação começou a fomentar em mim uma brutal desesperança por não enxergar, num horizonte próximo, a formação de cidadãos conscientes de sua importância social, são meros indigentes falando a mesma língua em rostos diferentes, não possuem o poder de se situar no tempo e no espaço, não possuem sequer vontade.
Enfim, gradativamente, a vocação do jovem promissor foi enterrada. Em seu lugar surge o ideal missionário de educar, ou melhor, mediar, como se o processo educacional fosse linear e limitado. Grande mediador, educador, missionário, como queiram, é aquele que consegue trabalhar dentro de um sistema engessado e falido, com satisfação no rosto e sensação de dever cumprido. Quem contesta o sistema é subversivo e perigoso, é o que rema ao contrário de todos, é o diferente. De sonhador a descrente, de condutor a passivo, de professor a educador, essa foi à trilha do jovem promissor. O abismo criado entre a teoria filosófica da prática pedagógica divulgadas nas cavernas platônicas das universidades, e o labor da prática educacional das salas de aula brasileiras – oásis de dominação – é a demonstração do total descaso que as autoridades tratam a educação. Os alunos são números estatísticos de propagandas mirabolantes, onde deveriam ser apenas seres humanos. As escolas são pequenos afeganistões, devido a péssima qualidade e estrutura das mesmas. Os professores transformaram-se em mercenários na busca louca de pleitear uma vaga na esfera pública, pois isso significa segurança, ou seja, a sua finalidade foi inteiramente desviada. O assistencialismo educacional assumiu um papel de grande relevância social, a “bolsa família” hoje é nossa maior teoria pedagógica – embora reconheça que a assistência do programa bolsa família seja um paliativo na condição de miséria humana, enxergo que o mesmo não emancipa ninguém, tornando-se, assim, mecanismo de controle e dependência -, nossos políticos, em grande parte, são os grandes predadores de nossa própria história, são os carrascos do nosso regime educacional, guiados pela égide capitalista liberal. Hoje, os alunos são clientes da escola, e como clientes, possuem todos os direitos e quase nenhum dever. Hoje, o jovem promissor, não mais acredita que poderá contagiar a sociedade, pois a mesma encontra-se, desde já, mergulhada numa profunda inércia, possuindo antídoto para minhas contaminações ideológicas. Hoje, a realidade me aparece nítida e cruel, meus discursos não saíram dos discursos, minha fala não possui conseqüência, o admirável mundo novo, agora, não passa de uma fria constatação de uma mediocridade pedagógica vigente.

Reginaldo Cabral, 29 anosProfessor de História, Sociologia e Filosofia, formado pela UFRPE.